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O Papa: acabar com a loucura cruel da guerra, corre-se o risco de uma catástrofe nuclear

Publicamos um trecho do livro “Eu vos peço em nome de Deus. Dez preces por um futuro de esperança”, editado por Hernan Reyes Alcaide, que será publicado pelas edições Piemme, neste dia 18. Francisco reitera seu apelo para pôr fim à loucura da guerra, para acabar com o escandaloso comércio de armas que causa vítimas inocentes. O convite é para construir um horizonte de paz, através do diálogo, respeito e confiança, porque está em jogo a sobrevivência da humanidade.

PAPA FRANCISCO

Há mais de dois mil anos, o poeta Virgílio escreveu este verso: “A guerra não traz salvação”. É difícil acreditar que desde então o mundo não tenha aprendido com a barbárie que habita os conflitos entre irmãos, compatriotas e países. A guerra é o sinal mais claro da desumanidade. Aquele grito sincero ainda ressoa. Durante anos, não ouvimos as vozes de homens e mulheres que estavam fazendo todo o possível para acabar com todos os tipos de conflitos armados. O Magistério da Igreja não poupou palavras para condenar a crueldade da guerra, e ao longo dos séculos XIX e XX, meus antecessores o chamaram de “um flagelo”, que “nunca” pode resolver problemas entre nações; afirmaram que a sua explosão é uma “matança inútil” com a qual “tudo pode ser perdido” e que, em última análise, “é sempre uma derrota da humanidade”.

Hoje, ao clamar em nome de Deus pelo fim da loucura cruel da guerra, também vejo sua persistência entre nós como o verdadeiro fracasso da política. A guerra na Ucrânia, que colocou as consciências de milhões de pessoas no centro do Ocidente diante da dura realidade de uma tragédia humanitária que já existia há algum tempo e simultaneamente em vários países, nos mostrou a maldade do horror da guerra. No século passado, em apenas trinta anos, a humanidade se deparou duas vezes com a tragédia de uma guerra mundial. Ainda há pessoas entre nós que carregam os horrores dessa loucura fratricida gravada em seus corpos. Muitos povos levaram décadas para se recuperar da ruína econômica e social causada pelo conflito. Hoje, assistimos a uma terceira guerra mundial em pedaços que, no entanto, ameaçam crescer cada vez mais, até assumirem a forma de um conflito global. À rejeição explícita de meus antecessores, os acontecimentos das duas primeiras décadas deste século me obrigam a acrescentar, sem ambiguidade, que não há ocasião em que uma guerra possa ser considerada justa. Jamais terá lugar para uma barbárie bélica. Especialmente quando a disputa adquire uma de suas faces mais iníquas: a das chamadas “guerras preventivas”.

A história recente nos deu exemplos, até mesmo de “guerras manipuladas”, nas quais foram criados falsos pretextos e falsificadas provas para justificar ataques a outros países. É por isso que convido as autoridades políticas a porem um fim às guerras em curso, a não manipularem informações e a não enganarem seus povos a fim de alcançar os objetivos bélicos. A guerra nunca é justificada. Na verdade, nunca será uma solução: basta pensar no poder destrutivo dos armamentos modernos para imaginar quão elevados são os riscos de que tal disputa desencadeie choques mil vezes maiores do que a suposta utilidade que alguns veem neles.

A guerra também é uma resposta ineficaz: ela nunca resolve os problemas que visa superar. Talvez o Iêmen, a Líbia ou a Síria, para citar alguns exemplos contemporâneos, estejam em melhor situação do que antes dos conflitos? Se alguém pensa que a guerra pode ser a resposta, deve estar fazendo as perguntas erradas. O fato de ainda hoje estarmos testemunhando conflitos armados, invasões ou ofensivas entre países manifesta uma falta de memória coletiva.

Talvez o século XX não nos tenha ensinado o risco que toda a família humana corre quando enfrenta a espiral bélica? Se todos estamos realmente comprometidos com o fim dos conflitos armados, mantenhamos viva a memória para que possamos agir a tempo e detê-los quando eles estiverem em gestação, antes que se inflamem com o uso da força militar. E para isso precisamos de diálogo, negociação, escuta, habilidade e criatividade diplomática, e uma política voltada para o futuro capaz de construir um sistema de coexistência que não se baseie no poder das armas ou na dissuasão. E como a guerra “não é um fantasma do passado, mas se tornou uma ameaça constante” (carta encíclica “Fratelli tutti”, 256), volto a recordar o escritor Elie Wiesel, sobrevivente dos campos de extermínio nazistas, que disse que hoje é imperativo realizar uma “transfusão de memória” e convidava a tomar alguma distância do presente para ouvir a voz de nossos antepassados. Ouçamos essa voz para que não voltemos a ver as faces da guerra.

De fato, a loucura da guerra permanece marcada na vida daqueles que a sofrem pessoalmente: pensemos nos rostos de cada mãe e de cada filho obrigados a fugir no desespero; de cada família violada; de cada pessoa catalogada como “dano colateral” dos ataques, sem respeito por suas vidas. Vejo contradição entre aqueles que reivindicam suas raízes cristãs, mas depois fomentam conflitos bélicos como formas de resolver interesses de parte. Não! Um bom político deve sempre visar a paz; um bom cristão deve sempre escolher o caminho do diálogo. Se chegamos à guerra, é porque a política falhou. E toda guerra que nasce é também um fracasso da humanidade. É por isso que devemos redobrar nossos esforços para construir uma paz duradoura. Vamos fazer uso da memória, da verdade e da justiça. Todos juntos devemos abrir o caminho para uma esperança comum. Todos nós podemos, e devemos, participar deste processo social de construção da paz. Ela começa em cada uma de nossas comunidades e se eleva como um grito às autoridades locais, nacionais e globais. Pois é deles que dependem as iniciativas apropriadas para deter a guerra. E a eles, fazendo este meu pedido em nome de Deus, peço também que se diga basta à produção e ao comércio internacional de armas.

O gasto mundial em armamentos é um dos escândalos morais mais graves da época atual. Mostra também quanta contradição existe entre falar de paz e, ao mesmo tempo, promover ou permitir o comércio de armas. É ainda mais imoral que os países entre os chamados desenvolvidos às vezes barrem a porta às pessoas que fogem das guerras que eles mesmos promoveram através da venda de armamentos. Isso acontece também aqui na Europa e é uma traição ao espírito dos pais fundadores. A corrida armamentista é a prova do esquecimento que pode nos invadir. Ou, pior ainda, da insensibilidade. Em 2021, no auge da pandemia, os gastos militares mundiais ultrapassaram pela primeira vez 2 milhões de dólares. Estes números são fornecidos por um importante centro de pesquisa em Estocolmo, e nos mostram que para cada 100 dólares gastos no mundo, 2,2 são gastos em armas. Com a guerra, há milhões de pessoas que perdem tudo, mas também algumas poucas que ganham milhões. É desencorajador até mesmo suspeitar que muitas guerras modernas são travadas para promover armas. Isto não pode continuar.

Peço aos líderes das nações, em nome de Deus, que se comprometam firmemente a pôr fim ao comércio de armas que causa tantas vítimas inocentes. Que tenham a coragem e a criatividade para substituir a fabricação de armas por indústrias que promovam a fraternidade, o bem comum universal e o desenvolvimento humano integral de seus povos. Ao pensamento da indústria bélica e de todo seu sistema, agrada-me recordar os pequenos gestos das pessoas que, mesmo através de atos individuais, nunca deixam de mostrar o quanto a verdadeira vontade da humanidade é estar livre de guerras. Mas além do problema do comércio internacional de armamentos para guerras e conflitos, não menos preocupante é a crescente facilidade com que, em muitos países, pode-se entrar em posse das chamadas armas de “uso pessoal”, geralmente de pequeno calibre, mas às vezes também de fuzis de assalto ou de alta potência.

Quantos casos já vimos de crianças mortas por manuseio de armas em suas casas, quantos massacres foram perpetrados por causa do fácil acesso a elas em algumas nações? Legal ou ilegal, em grande escala ou em supermercados, o comércio de armas é um problema sério e generalizado no mundo. Seria bom que esses debates tivessem mais visibilidade e que se busque um consenso internacional para que, globalmente, sejam colocadas restrições à produção, comercialização e posse desses instrumentos de morte. Quando falamos de paz e segurança em nível global, a primeira organização que pensamos é a Organização das Nações Unidas (ONU) e, em particular, seu Conselho de Segurança.

A guerra na Ucrânia evidenciou mais uma vez a necessidade da atual configuração multilateral de encontrar formas mais ágeis e eficazes de resolver os conflitos. Em tempos de guerra, é essencial argumentar que precisamos de mais multilateralismo e um multilateralismo melhor. A ONU foi construída sobre uma Carta que pretendia dar forma à rejeição dos horrores que a humanidade viveu nas duas guerras do século XX. Embora a ameaça de sua recorrência ainda esteja viva, por outro lado, o mundo de hoje não é mais o mesmo, e por isso é necessário repensar estas instituições de forma que respondam à nova realidade que existe e que sejam o resultado do mais alto consenso possível. Tornou-se mais do que óbvio como estas reformas são necessárias após a pandemia, quando o atual sistema multilateral mostrou todas as suas limitações. Desde a distribuição das vacinas, temos tido um exemplo claro de como às vezes a lei do mais forte pesa mais do que a solidariedade. Estamos, portanto, diante de uma oportunidade imperdível de pensar e conduzir reformas orgânicas, visando fazer com que as organizações internacionais recuperem sua vocação essencial para servir a família humana, para cuidar da Casa Comum e para proteger a vida de cada pessoa e a paz.

Mas não quero colocar toda a culpa nas organizações, que em última análise não são mais – mas também não menos – do que uma estrutura na qual os estados que as compõem se reúnem e determinam a política e as atividades. Está aqui a base da deslegitimação e degradação dos organismos internacionais: os Estados perderam a capacidade de ouvir uns aos outros a fim de tomar decisões consensuais favoráveis ao bem comum universal. Nenhuma estrutura legal pode se sustentar sem o compromisso dos interlocutores, da disponibilidade a uma discussão leal e sincera, da vontade de aceitar as inevitáveis concessões que surgem do diálogo entre as partes. Se os países membros destes órgãos não mostram a vontade política para fazê-los funcionar, estamos diante de um evidente passo atrás. Em vez disso, vemos que eles preferem impor suas próprias ideias ou interesses de uma maneira muitas vezes sem consultas. Somente se aproveitarmos a oportunidade pós-pandêmica para reiniciar esses órgãos poderemos criar instituições com as quais poderemos enfrentar os grandes desafios, sempre mais urgentes, que temos pela frente, como a mudança climática ou o uso pacífico da energia nuclear.

Neste sentido, assim como em minha carta encíclica Laudato si’ exortava a promover uma ‘ecologia integral’, da mesma forma creio que o debate sobre a reestruturação dos organismos internacionais deve ser inspirado no conceito de ‘segurança integral’. Ou seja, não mais limitado aos cânones do armamento e da força militar, mas consciente do fato de que em um mundo que atingiu um nível de interconexão como o atual, é impossível possuir, por exemplo, uma efetiva segurança alimentar sem a segurança ambiental, sanitária, econômica e social. E sobre esta hermenêutica deve se basear toda instituição global que procuraremos redesenhar, invocando sempre o diálogo, a abertura à confiança entre os países e o respeito intercultural e multilateral. Num contexto marcado pela urgência, e num horizonte de condenação da loucura da guerra e de exortação para redefinir o quadro internacional das relações entre Estados, não podemos ignorar a espada de Dâmocles que paira sobre a humanidade sob a forma de armas de destruição em massa, tais como as armas nucleares.

Diante de tal cenário, nos perguntamos: quem possui estes armamentos? Quais controles existem? Como deter a lógica que depende do acúmulo de ogivas nucleares para a dissuasão? Neste contexto, faço minha a condenação de São Paulo VI a este tipo de armamento, que após mais de meio século ainda é muito atual: “As armas, especialmente as terríveis, que a ciência moderna nos deu, mesmo antes de produzir vítimas e ruínas, geram pesadelos, alimentam maus sentimentos, criam pesadelos, desconfiança e intenções tristes, exigem enormes gastos, interrompem projetos de solidariedade e útil trabalho, e distorcem a psicologia dos povos”. Não há razão para continuar condenados ao terror da destruição atômica. Podemos encontrar caminhos que não nos deixem pendurados a uma iminente catástrofe nuclear causada por poucos. Forjar um mundo sem armas nucleares é possível, dado que temos a vontade e os instrumentos; e é necessário dada a ameaça que este tipo de armamento representa para a sobrevivência da humanidade.

Possuir armas nucleares e atômicas é imoral. Estão enganados aqueles que pensam que são um atalho mais seguro do que o diálogo, o respeito e a confiança, ou seja, os únicos caminhos que levariam a humanidade à garantia de uma convivência pacífica e fraterna. Hoje, é inaceitável e inconcebível que se continue a desperdiçar recursos para produzir este tipo de armas enquanto se aproxima uma grave crise que tem consequências sanitárias, alimentares e climáticas e sobre a qual nenhum investimento jamais será suficiente. A existência de armas nucleares e atômicas põe em perigo a sobrevivência da vida humana na Terra. E portanto, qualquer apelo em nome de Deus para que seja detida a loucura da guerra inclui também um apelo para erradicar do planeta esse armamento. O reverendo Martin Luther King expressou isto claramente em seu último discurso antes de ser assassinado: “Não se trata mais de escolher entre violência e não-violência, mas entre não-violência e não-existência”. A escolha depende de nós.

Publicado por Piemme pela Mondadori Libri S.p.A. © 2022 Mondadori Libri S.p.A., Milão

Fonte: https://www.vaticannews.va/

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